A comunidade do Centro Internacional da Água e Transdisciplinaridade (CIRAT) recebeu com profundo pesar a notícia do falecimento de Edgar Morin, um dos mais influentes pensadores do século XX e do início do século XXI. Sua obra transformou a maneira como compreendemos as relações entre conhecimento, educação, cultura, sociedade e natureza, inspirando gerações de pesquisadores, educadores e cidadãos em todo o mundo.
Mais do que filósofo, sociólogo ou antropólogo, Morin foi um defensor incansável da religação dos saberes e da construção de uma visão capaz de reconhecer a complexidade da vida humana e planetária. Seu pensamento, desenvolvido ao longo de mais de oito décadas de produção intelectual, continua a oferecer caminhos fundamentais para enfrentar os desafios ecológicos, sociais e civilizatórios do nosso tempo. Para o CIRAT, sua partida representa a despedida de uma referência intelectual e ética que ajudou a moldar nossa missão institucional, mas também reafirma a vitalidade de um legado que seguirá inspirando nossas ações e reflexões.
A fundação do Centro Internacional da Água e Transdisciplinaridade (CIRAT) tem como um de seus alicerces a visão transdisciplinar de Edgar Morin e de Basarab Nicolescu, que compreendem a transdisciplinaridade como necessariamente aberta à totalidade e à diversidade dos saberes humanos. Trata-se de uma abordagem que ultrapassa os limites das disciplinas e promove o diálogo e a reconciliação não apenas entre as ciências exatas e humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior. O pensamento complexo de Morin tem orientado nossos projetos e atividades, inspirando a missão do CIRAT. Por isso, o sentimento diante de sua partida é de profunda gratidão por seu legado intelectual, por sua humanidade acolhedora dos conhecimentos e das paixões humanas, por sua espiritualidade laica e poética e pelo pensamento complexo que sustenta nossa compreensão da Ecologia e da Humanidade.
Nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, com o nome Edgar Nahoum, era filho de uma família judia sefardita. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou na Resistência Francesa contra a ocupação nazista e adotou o sobrenome Morin na clandestinidade, nome que manteve ao longo de toda a sua vida. Sua trajetória intelectual foi marcada pela inquietação permanente, pela valorização da incerteza e pela busca de uma compreensão mais ampla da realidade. Escreveu sobre sociologia, filosofia, antropologia, cinema, educação, política, comunicação, ecologia, cultura de massa e condição humana. Em todos esses campos, procurou enfrentar uma das grandes dificuldades da modernidade: compreender o mundo quando o conhecimento se fragmenta em partes isoladas e a complexidade do tecido da vida é desfigurada.
Reconhecido internacionalmente, recebeu 38 títulos de doutor honoris causa concedidos por universidades de diversos países, incluindo instituições do Brasil, México, Colômbia, Chile e Espanha. Autor de uma vasta obra traduzida para dezenas de idiomas, publicou livros fundamentais para a compreensão da complexidade, entre os quais se destacam Introdução ao Pensamento Complexo, O Método, Ciência com Consciência, Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro — elaborado a pedido da UNESCO — e A Cabeça Bem-Feita, no qual propõe uma profunda reforma da educação. Manteve uma produção intelectual intensa até os últimos anos de vida. Em parceria com sua companheira, Sabah Abouessalam Morin, escreveu sobre a pandemia da COVID-19 e, em suas obras mais recentes, refletiu sobre os riscos das mudanças climáticas, as ameaças à democracia e os desafios da condição humana no século XXI. Após sua partida, Sabah destacou que Morin preservou até o fim o entusiasmo, a curiosidade e a alegria de viver que marcaram sua trajetória.
O Método, sua obra mais monumental, escrita em seis volumes ao longo de mais de três décadas, constitui uma verdadeira iniciação conceitual e existencial ao pensamento complexo. Para Morin, pensar a complexidade significa reconhecer que natureza física e biológica, conhecimento, ideias, sociedade, cultura e ciência compõem uma vasta teia de relações, contradições, incertezas e interdependências que estruturam a vida cósmica e planetária. Refletir sobre essa tessitura sem separar os seus fios é um exercício permanente de religação daquilo que a modernidade fragmentou, aproximando razão e sensibilidade, indivíduo e sociedade, natureza e ciência, ética e conhecimento, responsabilidade e ação.
Em uma das passagens mais emblemáticas de sua obra, Morin escreveu:
“Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas o fragmentam, o despojam de vida, de carne, de complexidade, e certas ciências supostamente humanas chegam inclusive a esvaziar a noção de homem.”
Para Morin, vivemos uma crise de civilização que produz, de forma recursiva, uma crise das mentalidades. A humanidade ainda não alcançou plenamente o sentido de Humanidade, pois a globalização criou uma unificação planetária que frequentemente ignora ou enfraquece a riqueza da diversidade cultural. Nesse contexto, a educação deve ensinar que a humanidade é, simultaneamente e na mesma medida, unidade e diversidade.
A resistência ocupa igualmente um lugar central em seu pensamento. Diante dos retrocessos democráticos e da fragilização dos valores humanistas, Morin defendia a necessidade de resistir por meio da solidariedade, da fraternidade e da construção de formas de vida mais justas. Em entrevista concedida ao jornal O Globo, em 2019, declarou:
“Vivemos uma época de retrocessos e devemos resistir. Resistir pelos valores humanistas, resistir pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Temos que manter essa ideia de fraternidade humana, de uma economia solidária, devemos manter uma ideia de um oásis, outro tipo de vida que não obedeça a poderes econômicos. Isso é resistência.”
Morin sempre enfatizou que a educação é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária e para o desenvolvimento de uma nova compreensão do mundo. Com o objetivo de superar a dispersão e a separação dos saberes presentes no ensino tradicional, propôs um modelo educacional capaz de religar conhecimentos e colocá-los em perspectiva. Por meio da transdisciplinaridade e do pensamento complexo, torna-se possível promover a religação dos saberes e fortalecer o sentimento de pertencimento dos seres humanos à vida cósmica e à comunidade de vida planetária.
Para Morin, a religação dos saberes aponta para a unidade planetária e, ao mesmo tempo, ensina que a diversidade constitui o verdadeiro tesouro da humanidade. Uma educação autêntica não pode privilegiar apenas a abstração do conhecimento; ela deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. Essa via transdisciplinar reconhece e afirma o papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo na construção e transmissão de conhecimentos voltados à preservação da vida e ao futuro da Humanidade.
Ao nos despedirmos de Edgar Morin, não celebramos apenas a memória de um grande intelectual, mas também a permanência de um pensamento que continua a iluminar os caminhos da educação, da ecologia, da ciência e da cidadania planetária. Seu legado permanece vivo como um convite permanente à compreensão da complexidade, à religação dos saberes e ao cultivo de uma consciência planetária capaz de unir diversidade, solidariedade e responsabilidade diante dos desafios do nosso tempo.
O CIRAT rende sua homenagem e expressa sua profunda gratidão a Edgar Morin. Sua obra seguirá inspirando aqueles que acreditam que compreender a complexidade do mundo é um passo essencial para transformá-lo.

